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Tráfico e vingança: quatro pessoas da mesma família são condenadas a mais de 77 anos de prisão por assassinato de jovem no Novo Aleixo artwork

Tráfico e vingança: quatro pessoas da mesma família são condenadas a mais de 77 anos de prisão por assassinato de jovem no Novo Aleixo

Portal CM7

September 16, 2026

Manaus – A frieza dos números estampados nas capas dos processos criminais muitas vezes não consegue traduzir a dimensão do horror vivenciado nas ruas da capital amazonense. Sete anos após um dos crimes mais chocantes e brutais registrados no Conjunto Águas Claras, bairro Novo Aleixo, zona No...

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Manaus, a frieza dos números estampados nas capas dos processos criminais, muitas vezes não consegue traduzir a dimensão do horror vivenciado nas ruas da capital amazonense. Sete anos após um dos crimes mais chocantes e brutais registrados no conjunto Águas Claras, bairro Novo Aleixo, zona norte de Manaus, a Justiça do Estado do Amazonas finalmente deu seu veredito. Em uma sessão marcada por intensos debates e um resgate doloroso dos fatos ocorridos em 2019, a Pemida Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Manaus condenou na última segunda-feira 14h09 quatro homens pertencentes à mesma família pela morte com requintes de crueldade do adolescente Ismael Calistro dos Santos Júnior, de apenas 17 anos. O crime, que a época chocou a comunidade pela extrema violência e sadismo dos executores, revelou-se uma teia complexa, onde se misturaram o submundo do tráfico de drogas, rixas familiares e um romance adolescente proibido. As sentenças, que somadas ultrapassam 77 anos de prisão, encerram um capítulo sombrio de impunidade e trazem uma resposta dura do Estado contra a barbárie que tenta se impor nas periferias da metrópole amazônica. Presos suspeitos na época do crime. A anatomia de uma tragédia anunciada. Para entender a dimensão do julgamento realizado nesta semana, é preciso voltar no tempo. Ao primeiro semestre de 2019, os registros policiais iniciais e a denúncia do Ministério Público oscilaram entre os meses de março e abril para precisar a data exata em que Ismael teve sua vida ceifada. Ismael, com apenas 17 anos, era um jovem inserido em uma realidade dura. De acordo com as investigações da delegacia especializada em homicídios e sequestros, ES, conduzidas pelo então delegado Paulo Martins, o adolescente atuava como um aviãozinho, gíria utilizada para descrever menores recrutados para o transporte de pequenas quantidades de entorpecentes no varejo do tráfico. No entanto, as motivações do crime foram além de uma simples disputa territorial. A trama de ódio começou a se desenhar em torno de um relacionamento amoroso.

Ismael namorava a filha de Leide Mar dos Santos Nascimento e de um dos envolvidos no crime. Um romance que era terminantemente desaprovado pela família da garota. A tensão atingiu seu ponto de ebulição em uma noite fatídica, que começou com uma discussão acalorada em um bar local entre a vítima e Mauricio dos Santos, de 37 anos, tio da namorada de Ismael. O desentendimento no bar foi apenas o estopim. Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado do Amazonas, havia também um pano de fundo criminoso. Os acusados planejavam se apropriar de entorpecentes que pertenciam ou estavam sob a guarda do adolescente. Ao descobrir o plano, Ismael cometeu o erro que lhe custaria a vida. Foi até a residência dos réus para ameaçá-los caso tentassem roubar a droga. A osadia do jovem, somada a desavença familiar, selou seu destino, a madrugada de sangue e crueldade. Após ameaçar a família, Ismael deixou o local rapidamente devido a uma patrulha policial que rondava a área. Porém, o orgulho ferido e a promessa de vingança mobilizaram um verdadeiro esquadrão da morte familiar. Mauricio dos Santos, apontado como mentor intelectual e líder da ação, convocou seus quatro sobrinhos, os irmãos Douglas Felipe, Douglas Jonathan, Mário Gabriel e Mário Lucas Barbosa dos Santos, para consumar o ato. O que se seguiu nas horas seguintes, por volta das 4 horas da madrugada, na rua Jardim Olinda, foi uma sessão de tortura a céu aberto. Ismael foi emboscado e passou a ser espancado brutalmente pelos homens.

Não satisfeitos, os agressores arrastaram o adolescente sangrando pelas ruas do Águas Claras, jogando-o no porta-malas de um carro com o objetivo de desová-lo em uma área de mata fechada da região.

No instinto desesperado de sobrevivência, Ismael conseguiu se desvencilhar e tentou correr para a vida. Foi um esforço em vão. O adolescente foi alacansado de forma covarde. Atropelado pelos réus, ele caiu indefeso no chão, momento em que foi executado com múltiplos e violentos golpes de terçado. Faca de grande porte. A perícia técnica da época revelou detalhes grotescos da execução, atestando que em um ato final de puro ódio e mensagem típica de facções, o jovem teve suas mãos decepadas. O Tribunal do Júri. A hora da verdade. Sete anos após as prisões preventivas e o início da instrução criminal, os cinco réus sentaram-se no Banco dos Réus na ação penal no 06-1771-2019-8104-01.

A sessão, presidida de forma firme pelo juiz de direito Jadison de Souza Lima, foi o palco do embate final entre a acusação e a defesa. O promotor de justiça Vivaldo Castro de Souza, representando o MPAM, dessecou com precisão cirúrgica a participação de cada membro do clã. O Ministério Público postulou a procedência parcial da denúncia, pedindo a condenação de quatro dos cinco réus.

Durante as sustentações orais, a defesa, capitaneada pelos advogados Adonai Paz Barreto de Oliveira e Luiz Eduardo dos Santos Valóes Coelho, utilizou a clássica tese de negativa de autoria e insuficiência de provas materiais e testemunhais que ligassem diretamente os irmãos aos golpes fatais. Os réus, em seus interrogatórios perante os jurados, mantiveram o pacto de silêncio parcial e negaram ter cometido o assassinato. Mas o Conselho de Sentença, formado por membros da sociedade manauara, não se deixou convencer pelas negativas e reconheceu a materialidade e a brutalidade do homicídio, acatando as qualificadoras de crueldade e recurso dificultou a defesa da vítima.

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