O Bolsa Família na reta final da eleição
O Assunto
October 21, 2026
Convidado: Pedro Fernando Nery, economista, consultor do Senado Federal e autor do livro "Extremos: um mapa para entender as desigualdades no Brasil". O programa foi criado em 2003, quando mais de 60 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha da pobreza.
Speakers Natuza Nery, Pedro Fernando Nery, Ricardo Henriques
TopicsNews
Natuza Nery (0:01)
2003, mais de 60 milhões de pessoas viveam abaixo da linha da pobreza no Brasil. Em outubro daquele ano, o governo federal criou um programa de transferência de renda que pagaria mensalmente um valor a famílias pobres ou extremamente pobres. Em contrapartida, exigiria frequência escolar e carteira de vacinação das crianças em dia. Assim, nasceu Bolsa Família.
Ele ajuda em tudo, né?
SPEAKER_2 (0:27)
As coisas dos meninos, escolas, né? A alimentação.
SPEAKER_3 (0:32)
Porque tem gente aí que não merece, sinceramente, né? O dinheiro que eles não merecem, e as pessoas que estão merecendo, ficam no lato. Isso aí eu canso de ver, né?
SPEAKER_2 (0:42)
Compro roupa pra ela, biscoito. Ainda postura sobrar ainda 50 reais pra hora que eu precisar ter.
SPEAKER_4 (0:49)
Quando você recebe Bolsa Família, qualquer tipo de auxílio desse tipo do governo, está fazendo uma aliança à miséria com a pobreza.
SPEAKER_3 (0:57)
Tá dificuldade, cê tem que comprar fralda, leis pro menino. Aí fica assim, né? Que eu moro na roça, aí tá sem serviço.
Natuza Nery (1:05)
Agora corta pra 2013, uma década depois. Naquele ano, 36 milhões de brasileiros e brasileiras haviam deixado a condição de miséria. E no ano seguinte, o Brasil sairia do mapa da fome da ONU pela primeira vez.
SPEAKER_6 (1:20)
Em 2004, a gente tinha esse dado. 12% da população em insegurança alimentar grave. Em 2013, a fome atingiu menor patamar, 6,1%. E em 2014, oficialmente, o Brasil sai do mapa da fome da ONU, ali no governo Dilma Rousseff. Depois, em 2018, volta a aumentar a fome, atingindo 10,1% da população. Em 2022, o Brasil retorna ao mapa da fome. O número voltou a cair para 8,7 milhões. Em 2023...
Natuza Nery (1:50)
Agora vamos avançar novamente uma década e chegar a 2023, ano em que os efeitos do Bolsa Família já estão mais consolidados. Um estudo realizado pelo Banco Mundial mostra que a cada real pago pelo programa, R$ 2,16, acabam voltando para a economia local. O efeito, portanto, é multiplicador.
SPEAKER_7 (2:11)
É o caso da manicure Edna dos Santos, e recebe o benefício por conta dos seus dois filhos mais novos.
SPEAKER_2 (2:17)
Eu tenho uma amiga, ela é contadora. Aí conversando, Gilmar, eu tô desempregada. Ela, olha, você não quer mais trabalhar? Não, eu quero trabalhar, mas eu quero trabalhar pra mim.
SPEAKER_8 (2:26)
O Bolsa Família, ele proporciona o que? Você relaxar um pouco, pelo menos, a uma parte da alimentação, principalmente em relação ao meu filho. E as outras, você corre atrás e errou o trabalho mesmo.
Natuza Nery (2:37)
Agora chegamos a 2026, e já se sabe que o Bolsa Família tem impactos até no mercado de trabalho. É o que diz um estudo da Fundação Getúlio Vargas.
SPEAKER_7 (2:46)
Beneficiários do Bolsa Família ocuparam 85% das vagas de novos empregos formais gerados no Brasil. É o que mostra o estudo da Fundação Getúlio Vargas, fundados no Cagedi. E as mulheres responderam por mais da metade do saldo entre os beneficiários.
Natuza Nery (3:02)
Na reta final desta eleição, o programa, que atende mais de 19 milhões de famílias brasileiras, entrou de vez no debate público. Em setembro, o governo federal anunciou um reajuste de 15,04% no benefício e agora, no segundo turno, as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro indicam para a sociedade quais são as suas propostas para o programa.
Da Redação do G1, eu sou Natusa Neri e o assunto hoje é o Bolsa Família na reta final da eleição. Neste episódio, eu converso com Pedro Fernando Neri, economista, consultor do Senado Federal, colunista do Jornal Estadão e autor do livro Extremos, um mapa para entender as desigualdades no Brasil, quarta-feira, 21 de outubro. Pedro, para começo de conversa, uma pergunta que normalmente se faz e que normalmente é alvo de desinformação. É verdade que quem recebe o Bolsa Família não quer procurar trabalho ou aceitar um emprego formal?
Pedro Fernando Nery (4:09)
Olha, a evidência que a gente tem para o Brasil e para outros países sobre o chamado efeito preguiça é que ele não existe. As pessoas que estão em programas sociais normalmente querem receber mais, não querem se contentar com pouco.
Pelo menos até a pandemia, quando os valores do Bolsa Família eram muito baixinhos, a gente tinha muita evidência, ao contrário, de que o Bolsa Família aumentava o nível de emprego das pessoas. Basta a gente pensar que alguma renda é necessária até para procurar emprego. Então, se você não tem nada, como é que você imprime um currículo? Como é que você paga a tarifa do ônibus para ir bater perna no centro da cidade e distribuir currículo e procurar vagas? E mais do que isso, a gente sabe, para o Brasil e para outros países, que especialmente quando uma família está numa situação de muita vulnerabilidade, muita miséria, o benefício é importante até para permitir algum planejamento da própria vida. Se você está preocupado com conseguir almoço para os seus filhos amanhã, dificilmente você vai conseguir pensar em estratégias de como conseguir emprego, aonde você vai bater, que tipo de ocupação você vai correr atrás. Essa ideia de que existe uma escassez, digamos assim, na nossa capacidade de formular o futuro e pensar decisões, é um avanço importante da literatura, digamos, científica sobre pobreza. Então, aliviar a pobreza em curto prazo ajuda, inclusive, as pessoas a pensarem estratégias para sair da pobreza e até conseguir os meios para procurar uma vaga de emprego.
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