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Lula e Trump: os discursos e os recados políticos na Assembleia da ONU

O Assunto

September 23, 2026

Convidado: Guilherme Casarões, cientista político e professor da Florida International University, nos EUA.

Speakers Luiz Inácio Lula da Silva, Natuza Nery, Guilherme Casarões

TopicsNews

Luiz Inácio Lula da Silva (0:04)

O bravil não cabe no quintal de ninguém.

Natuza Nery (0:07)

Não foi uma frase solta. Na terça-feira, Lula subiu a tribuna da Assembleia Geral da ONU em um dos momentos de maior tensão entre Brasília e Washington e fez da soberania o fio condutor do seu discurso. Sem citar diretamente os Estados Unidos, falou em interferência de potências estrangeiras na América Latina e em processos eleitorais.

O nome de Trump não apareceu, mas o destinatário do recado era difícil de ignorar.

SPEAKER_3 (0:34)

O presidente afirmou que a região voltou a presenciar a ingerença externa em processos eleitorais, defendeu o sistema de votação eletrônica no Brasil e falou sobre a segurança nas fronteiras.

Luiz Inácio Lula da Silva (0:48)

Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas.

Natuza Nery (0:52)

O diagnóstico foi além. Lula descreveu uma ONU enfraquecida diante de guerras e conflitos e de uma ordem internacional na qual, segundo ele, a força tem vencido ou ganhado mais espaço do que a diplomacia e o direito internacional.

Luiz Inácio Lula da Silva (1:09)

O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas, a de livrar a humanidade do fragélo da guerra. Não desconheço as realidades do poder, mas as confesões à lei do mais forte já passaram dos limites.

Isso não é idealismo, é o mais puro realismo. A guerra não é a continuação da política por outros meios, é a falência total da política.

Natuza Nery (1:43)

E havia um outro elemento, o calendário. Há menos de duas semanas do primeiro turno, Lula levou para a principal tribuna diplomática do mundo temas que já fazem parte da disputa política aqui no Brasil. O presidente falou de assuntos bem brasileiros, fim da escala 6x1, combate ao crime organizado, regulamentação das big tax e proteção ao PICS. E claro, de eleição.

Luiz Inácio Lula da Silva (2:08)

Quero concluir com uma mensagem sobre o meu país a todos os que nos ouvem. No dia 4 de outubro, milhoes de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Teremos um pleito transparente e competitivo que todos os candidatos disfrutam da mais ampla liberdade de expressão.

Natuza Nery (2:29)

E depois de o presidente brasileiro deixar a tribuna, foi a vez de Donald Trump se apresentar ao plenário das Nações Unidas. E aí, o tom mudou completamente. O presidente americano voltou a exaltar a própria gestão e o papel dos Estados Unidos no mundo.

Falou sobre a guerra contra o Irã, disse que seu governo está vencendo o conflito, o que não é verdade, e reforçou a sua visão sobre quem é que manda a tal ideia do quintal americano.

SPEAKER_4 (2:58)

Trump afirmou que tem uma grande decisão a tomar fechar um acordo que permita que o Irã seja reconstruído como um país melhor, ou aniquilar o Irã.

SPEAKER_3 (3:09)

Ou aniquilar a República Islâmica?

SPEAKER_4 (3:12)

E disse que as ações na Venezuela são prova de que o governo americano não vai mais permitir que a ameaça aos Estados Unidos ganhe força no hemisfério ocidental. Se necessário, usaremos o nosso poderio militar para garantir os nossos interesses.

Natuza Nery (3:34)

Da Redação do G1, eu sou Nathuzan Eri e o assunto hoje é O discurso e os recados políticos de Lula na Assembleia Geral da ONU. Neste episódio, eu converso com Guilherme Casarões, cientista político e professor da Florida International University nos Estados Unidos. Quarta-feira, 23 de setembro.

Casarões, eu quero passar trecho a trecho do discurso do presidente da República na ONU. Foram quase 22 minutos de fala na abertura da Assembleia Geral. E talvez o momento mais forte que estampou as manchetes nos jornais brasileiros tenha sido o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Eu queria que você destrinchasse essa ideia para a gente. E por que ela foi dada naquele palco, naquela arena?

Guilherme Casarões (4:28)

Natus, o discurso do presidente Lula é o seu décimo na abertura do debate geral da Assembleia Geral da ONU. Ele faz isso desde 2003 com bastante regularidade. Aliás, dá até para dizer que foi o Lula o primeiro presidente que consolidou esse protocolo, essa tradição já da nossa diplomacia de o presidente brasileiro abrir os debates da Assembleia Geral da ONU. Até o governo FHC, ora aí o presidente, ora aí o chanceler. Então agora a gente vê essa centralidade do presidente de maneira mais clara. E, obviamente, sendo o presidente abrir o debate geral da Assembleia Geral, a gente tem um recado que sempre comunica para fora e para dentro ao mesmo tempo. Ou seja, a mensagem do estadista, a mensagem sobre a crise do multilateralismo, eu costumo chamar o diagnóstico brasileiro sobre o mundo, que é geralmente em cabeça de discurso. Essa primeira e longa parte é uma parte que discute os grandes temas da política internacional, o que está acontecendo na agenda internacional. E, no caso do Brasil, a gente sempre acrescenta o que o Brasil tem a ver com isso. E foi nesse contexto que o Lula fala que o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Quer dizer, olhando para o lugar específico que o Brasil ocupa nesse tabuleiro ou nesse mundo que a gente está vivendo. Eu faço essa volta toda para dizer o seguinte. Essa frase tem duas funções. Uma função de denunciar de maneira muito clara aquilo que os Estados Unidos vem buscando fazer com a América Latina, que é justamente transformar ou retransformar a nossa região num quintal geopolítico dos Estados Unidos, de onde se extraem recursos, aonde se oprimem as populações aos interesses e benefícios dos americanos. E, ao mesmo tempo, existe um recado interno que é justamente dizer eu, como presidente da República, o presidente Lula falando, que não aceitarei nenhuma potência estrangeira determinando aquilo que é o interesse do povo brasileiro. E, da mesma forma como eu, como presidente, não aceitarei, nenhum presidente ou candidato à presidência deveria submeter a imposição de interesses alheios ou estranhos à nossa sociedade.

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