A fé e o voto: Igreja e Estado diante da urna
O Assunto
September 25, 2026
Convidada: Ana Carolina Evangelista, cientista política e pesquisadora sênior do Instituto de Estudos da Religião (Iser). A legislação eleitoral coloca uma fronteira clara entre Estado e Igreja.
Speakers Natuza Nery, Lívia Reis, Ana Carolina Evangelista
TopicsNews
Natuza Nery (0:04)
Fé é fé. Voto é voto.
A legislação eleitoral coloca uma fronteira clara entre Estado e Igreja. Templo religiosos são considerados bens de uso comum e não podem ser usados para propaganda eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral já decidiu até que manifestações de apoio a candidatos que ocorram dentro de igrejas, mesmo que não haja um pedido explícito de voto, podem configurar propaganda irregular. Só que na prática, o púlpito e o palanque ainda se encontram.
Natuza Nery (0:37)
Pastor, a gente está conversando numa época de um ano de eleição, uma época em que a eleição vai se aproximando, e eu tenho curiosidade de saber se esse assunto chega na Igreja.
SPEAKER_3 (0:48)
Um dos nossos princípios é a separação total da Igreja em relação ao Estado, mas isso não acontece muito na prática.
Natuza Nery (0:55)
Uma pesquisa inédita sobre religião e vida pública no Brasil mostra que o eleitor quer manter a política longe dos espaços religiosos. É o que explica Lívia Reis, antropóloga e uma das coordenadoras do estudo conduzido pelo Instituto de Estudos da Religião, o ISER, e pela Quest.
Lívia Reis (1:12)
A gente sabe que 82% dos fiéis discordam, que se discuta política nas igrejas ou espaços religiosos, 83% discordam que se indiquem quem votar e 90% discordam que qualquer candidato faça campanha dentro de igreja. Isso tudo em período eleitoral, né? Ao mesmo tempo, a gente sabe que a recomendação do voto ocorre. Então, a gente tem duas leituras para esse fenômeno, né? Uma leitura, é claro que a mediação religiosa do voto não vai operar só pela politização do templo, evidentemente, mas também pela produção desse sentido moral e comunitário. O eleitor não vai votar porque o pastore indicou o nome. Ele vai votar porque o repertório moral, comunitário, identitário produzido por aquela comunidade vai organizar ali a sua leitura sobre política, a sua percepção sobre o que é a política. A gente também sabe que muitas vezes as lideranças não recomendam voto diretamente, mas indicam em quem não votar. A gente vê aí anos de construção de inimigos internos, sobretudo dentro de um contexto de batalha, de guerra espiritual, que faz sobretudo sentido dentro do pentecostalismo, do segmento evangélico, mas ainda com mais força dentro do pentecostalismo.
Natuza Nery (2:22)
A influência das lideranças não termina na porta da igreja. Ela passa pelo grupo de WhatsApp, pelo vídeo nas redes, pelo influenciador religioso e por uma rede de confiança que faz da fé também um espaço de circulação da política.
Lívia Reis (2:37)
Eu acho que de todo modo também esse alinhamento de segmentos cristãos, sobretudo dos evangélicos, mas também dos católicos praticantes, que se alinham aos evangélicos em muitos aspectos. Os posicionamentos, sobretudo em posicionamentos mais conservadores, vem também desse alinhamento de valores e da construção eficiente desses inimigos, que são identificáveis por parte de grandes lideranças religiosas. Essas mensagens também se reproduzem com muita facilidade pela membresia, também pelas formas mediadas de religião, sobretudo o WhatsApp, o YouTube.
Ou seja, o Fial está muito exposto também à religião mediada.
Natuza Nery (3:15)
Tudo isso em um país que vive uma transformação sem precedentes.
Natuza Nery (3:19)
A quase totalidade dos brasileiros se declaravam católicos. Isso passou a mudar em escala significativa a partir da segunda metade do século XX. Mas o grande salto dos evangélicos veio nos anos 2000 De acordo com o consenso mais recente, eles atualmente somam mais de um quarto da população do país.
SPEAKER_3 (3:38)
Um país deste tamanho continental, em que sem nenhuma influência do Estado, as pessoas estão trocando de religião, isso só aconteceu no mundo aqui no Brasil.
Natuza Nery (3:50)
Da Redação do G1, eu sou o Natuzaneri e o assunto hoje é A Fé e o Voto. Quando igreja e Estado se misturam diante da urna. Neste episódio, eu converso com Ana Carolina Evangelista, cientista política e pesquisadora sênior do ISER. Sexta-feira, 25 de setembro.
É, Ana Carolina, mas eu vou te chamar de Karô, porque foi como eu te conheci. Então, Karô, para a gente começar, o ISER e a Quest fizeram uma grande pesquisa, ouviram 15 mil pessoas no Brasil todo para entender o que pensam os brasileiros sobre política e religião. Um tema desta eleição, da eleição passada. Eu sei que, entre inúmeros achados dessa pesquisa, tem duas ideias que você destaca. E eu quero que você diga para mim quais são essas duas ideias, essas conclusões que a pesquisa trouxe.
Ana Carolina Evangelista (4:48)
Olha, a pesquisa, como vocês sabem, a gente viu, a gente consegue fazer um diagnóstico com ela mais apurado sobre o perfil religioso brasileiro. Algo que a gente estava precisando complementar tanto com os dados. E aqui, olhar de forma detalhada é fundamental. Então, a gente confirma como o Censo já indicava, que a gente tem um Brasil menos católico, mais cristão e também mais plural, e, ao mesmo tempo, com fronteiras menos demarcadas e mais porosas, quando a gente olha para o perfil e para as práticas dos grandes grupos religiosos dessa forma mais desagregada. Então, do ponto de vista social e político, a gente primeiro identifica que a religião, assim como qualquer outro marcador social, impacta em alguns aspectos e é irrelevante em outros. A religião importa mais quando a gente fala de valores, quando a gente fala de algumas expectativas das pessoas com relação ao Estado e em alguns comportamentos eleitorais e políticos. Um outro ponto importante, Natusa, é que nesses casos, denominação ou a instituição religiosa, por exemplo, que a pessoa frequenta e a região do país onde ela está, importa mais do que a religião declarada somente. Evangelico sem igreja, por exemplo, tem posicionamentos diferentes de evangélicos com denominação identificada em relação a valores e posicionamento político. Em relação a posicionamento de voto, em relação a olhares sobre algumas políticas públicas. Então, a intermediação, vínculo institucional, o espaço institucional religioso ao qual aquela pessoa está submetida ou ela frequenta, nos mostra nessa pesquisa que pode ter um impacto, porque mostram diferenças. E a frequência religiosa também importa. A gente consegue, com esse desolado, agregado para todos os grupos, porque a gente pergunta a identidade religiosa, a gente pergunta de qual instituição a pessoa faz parte, se faz ou se também não tem religião, e a gente pergunta sobre práticas. E aí a gente vê que católicos praticantes e evangélicos, no geral, têm um maior nível de frequência semanal às igrejas, bastante destacado comparado com os demais grupos religiosos, e eles estão mais alinhados a posicionamentos conservadores e alinhados hoje a um espectro político-artidário mais à direita.
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