A eleição das redes sociais e o que muda na disputa como a conhecemos
O Assunto
October 8, 2026
Convidado: Beto Vasques, diretor do Instituto Democracia em Xeque e coordenador do Laboratório de Opinião Pública da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo O resultado do 1º turno consolida uma tendência no processo eleitoral brasileiro: a conversão em votos da popularidade digital...
Speakers Natuza Nery, Beto Vasques
TopicsNews
SPEAKER_1 (0:01)
Olá, meu nome é Nicolas Ferreira e eu sou candidato a...
SPEAKER_2 (0:03)
Você já pode ter me visto no seu feed.
SPEAKER_3 (0:05)
Meu nome é Ana Elisa, eu tenho 21 anos... Meu nome é João Esmanoel.
SPEAKER_2 (0:09)
Olá, meu nome é Pavanato.
SPEAKER_1 (0:11)
Sabe aquele vídeo que você mandou lá no grupo da família? Pois é, era eu.
Natuza Nery (0:15)
Deixa eu te fazer uma pergunta sobre estas eleições. A vantagem que a gente vê nas redes sociais, ela é ideológica ou é de quem aprendeu primeiro a falar a língua do algoritmo? Num debate político cada vez mais mediado pelas redes, não basta ter uma mensagem. É preciso entender o que faz essa mensagem circular mais e mais.
SPEAKER_5 (0:37)
As redes sociais se consolidaram como um palanque poderoso nas eleições. Foi assim que jovens influenciadores desbancaram alguns figurões da política e garantiram vagas no Congresso.
Natuza Nery (0:50)
Nas redes, é o conteúdo político que encontra o eleitor. No meio de uma receita, de uma dança, de uma piada, de um meme ou de um vídeo de apenas 10 segundos.
E quem entende a lógica desse ambiente tem mais chance de disputar a atenção de quem está do outro lado da tela. É o que explica João Feres, professor titular de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública.
SPEAKER_3 (1:18)
Estudos externos que tratam o resultado disso já notaram que você tem, na verdade, o maior sucesso de difusão das mensagens quando elas têm conteúdos disruptivos, ou seja, quando elas têm conteúdos que induzem as pessoas, os usuários a terem reações ou de extrema de amor ou de ódio. O estilo da comunicação engaja muito mais via algoritmo do que outros, ou seja, isso produz um efeito diferencial no engajamento. E os estudos também mostram que a direita tende a usar mais esse tipo de comunicação disruptiva, esse tipo de comunicação que provoca reações emocionais.
Natuza Nery (2:00)
Disputar política nas redes não é apenas disputar engajamento, é disputar pertencimento, é fazer alguém olhar para uma comunidade e pensar, este é o meu lugar.
SPEAKER_3 (2:10)
Ideologias ou líderes carismáticos funcionam como um atalho cognitivo, porque a pessoa, na verdade, sabe que quando ele adere a ele, ele adere a um pacote de posições. Aí criou uma identidade que não havia antes.
Natuza Nery (2:29)
Da Redação do G1, eu sou Natusa Neri e o assunto hoje é a eleição das redes e o que muda na disputa como a conhecemos. Neste episódio, eu converso com Beto Vasquez, diretor do Instituto Democracia em Cheque e coordenador do Laboratório de Opinião Pública da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Quinta-feira, 8 de outubro.
Beto, tanto a direita quanto a esquerda tiveram forte presença nas eleições para o Congresso Nacional. Como a gente viu, isso tudo no campo digital. Eles usaram uma plataforma digital com muita eficiência e conseguiram transformar esses seguidores em votos, ou esses likes em votos. A direita fez isso de forma mais numerosa. Eu queria entender contigo quais foram os principais aspectos dessa vitória mais numerosa no campo da direita, mas que também elegeu integrantes da esquerda, dentro de um princípio até parecido, para o Legislativo Brasileiro.
Beto Vasques (3:44)
Eu separaria em três categorias. Eu acho que tem duas questões que eu chamaria ambientais, duas decisões da campanha do presidente Lula e dois acertos da direita e um da esquerda. Questões ambientais que a gente diz, né, a paisagem. Eu sempre brinco que é como uma onda. Se você está no mar, você não decide se a onda vem ou não. Você pode decidir surfar ela, passar por baixo ou tomar um caldo. O que a campanha do Flávio Bolsonaro fez? Surfou essas ondas porque elas eram favoráveis para ele. Que ondas eu estou falando? Uma primeira é o que eu chamo de saturação do eleitorado. Tem outros colegas que têm chamado de eleitorado apático, cansado. A gente viu isso, né, Natus? A gente viu um eleitorado que não estava afim de falar de política, que parecia que não estava vivenciando uma eminência de um processo eleitoral. E o outro fator é o que eu chamo de campanha não campanha. Ou seja, a gente discutiu durante o primeiro turno, master, STF e no finalzinho, quando a gente falou agora a gente vai discutir campanha, entrou Nossa Senhora. Esses dois fenômenos ambientais, eles foram muito favoráveis ao senador, porque ele tinha uma biografia que tinha problemas a tratar. Então ele se aproveitou para esconder atrás dessa campanha não campanha de um eleitorado cansado, foi favorável para o senador. E as duas decisões da campanha do Lula, que eu não acho que foram erradas, elas mostravam a fragilidade da campanha. Mas quais foram essas duas decisões? Primeiro, a não ir a debates. A partir do momento que o presidente Lula não vai a debate, ele permite que o senador Flávio também não vá a debate e possa continuar se escondendo. E uma segunda decisão é que o presidente Lula, na campanha dele, optou em não pegar pesado com o Flávio, porque eles viam o Flávio como o melhor adversário. A campanha do Lula queria o Flávio, porque estava olhando pesquisa e sabia que era o melhor, se não talvez o único adversário plausível, porque tinha uma rejeição próxima do presidente Lula, que são rejeições proibitivas de ambos. Então, a única forma de enfrentar um candidato que tivesse uma rejeição alta era tentar manter o Flávio. E o ponto de partida, qual era, Natusa? O ponto de partida é que quando a gente tem uma eleição com onde um incumbente vai à reeleição, a gente sempre diz que é uma eleição plebiscitária, continuidade ou mudança. Qual o indicador diz para a gente se será continuidade ou mudança? É a aprovação de governo. A gente viu na véspera das eleições que a aprovação estava entre 1% e 2% negativo. Quando abriu-se a urna, o Flávio estava a 1,87%, a frente do presidente Lula. Por quê? Porque um candidato que é ruim, porque tem, assim como o presidente, uma rejeição alta, mas ambos ficam escondidos numa campanha com uma reprovação do governo pequena, dá uma margem pequena favorável ao seu adversário da oposição. Então, esses foram os ambientes incontroláveis pelo Flávio que o fizeram bem. Os dois acertos, tanto a esquerda quanto ao Partido Liberal, eles fizeram uma aposta firme por nativos digitais. E eu acho que ficou evidente pelo resultado, sobretudo, da Câmara e do Senado, a potência dos nativos digitais. A gente realmente termina de, digamos, conformar uma nova forma de comunicação política que começa em 2018 de forma forte, onde o influenciador começa a ocupar o espaço do político.
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