Olavo de Carvalho, 2004_ O Brasil perante os Conflitos da Nova Ordem Mundial. Palestra na OAB - Por Olavo de Carvalho
Olavo Tem Razão
September 21, 2025
Olavo de Carvalho, 2004_ O Brasil perante os Conflitos da Nova Ordem Mundial. Palestra na OAB
Speakers Luiz Flávio Borges D'Urso, Fernando Lobo Dessa, Olavo de Carvalho
Luiz Flávio Borges D'Urso (0:38)
Muito bom dia a todos, declaro aberto essa sessão, que é uma reunião ordinária da nossa Comissão de Comércio Exterior e Relações Internacionais, que, como sabem, está sempre precedida por uma palestra de um conferencista de renome nacional e internacional, como tem sido usual em nossos últimos encontros. Hoje temos a honra de receber o professor Olavo de Carvalho, que será apresentado pelo membro da nossa Comissão, o professor Fernando Lobo Dessa, que vai nos brindar com a palestra do Brasil perante os conflitos da nova ordem mundial, oportunidades e desafios. E, professor Olavo, essa palestra também é gravada, depois é acetida para a Videoteca da UAB, é transmitida também no interior, enfim, tem uma dimensão muito grande as palavras de vossa excelência nesse nosso evento. Posso falar, então? Dr. Fernando Globo, dessa.
Fernando Lobo Dessa (1:34)
Bom dia a todos. Bom, é... Fazer uma preleção sobre o professor Olavo de Carvalho é quase que uma redundância, porque os senhores devem acompanhar os seus artigos nos jornais, ele é, além de filósofo e escritor, é articulista do Globo, do Jornal da Tarde e da Zero Hora. O professor Olavo de Carvalho se destaca, além de ser um tratadista de Aristóteles, é um dos maiores filósofos da atualidade no Brasil. É um profundo conhecedor dos ensinamentos da filosofia clássica e combate com bastante argusso e veemência a tendência de socialização do Estado e da supressão das garantias individuais. O professor Olavo defende, com argumentos bastante argutos, o liberalismo econômico e a liberdade de expressão, enfim, os direitos individuais clássicos. De modo que o professor Olavo é uma das maiores cabeças da atualidade na filosofia e no cenário filosófico brasileiro, que portanto dispensa maiores apresentações. Eu vou passar a palavra imediatamente a ele, para que nós possamos beber das suas luzes.
Luiz Flávio Borges D'Urso (2:55)
Então, professor Olavo, nós costumamos fazer uma palestra de 30 a 40 minutos, seguidos debates e cerramos por volta das 10 horas, se estiver bem.
Olavo de Carvalho (3:08)
Bom dia a todos, agradeço não somente o convite, mas as palavras gentis, não sei se as atas, mas gentis, dito a meu respeito. Dito isso, entramos no assunto. O tema dessa palestra, ele é temível, sobretudo, porque não é possível você expor a sua visão de um conjunto de fatos, quando esse próprio conjunto é desconhecido. Entre o Brasil e a situação mundial existe um abismo de informação que já vai para 30 anos. Se nós acompanharmos os livros e os estudos que tem sido publicados, sobretudo, nos Estados Unidos e na Inglaterra, a respeito da nova estrutura de poder mundial de 30 anos para cá, nós veremos que praticamente nada, nada disto chegou ao Brasil. Nem mesmo uma obra escrita, por exemplo, pelo um filósofo belga que morou no Brasil durante 20 anos, que é o padre Michelos Coianis. Ele publicou um livro chamado La Face Cachet de l'Onu, a face oculta da ONU. O livro está publicado há mais de 10 anos e, mesmo sendo um homem conhecidíssimo no meio universitário brasileiro, o livro não saiu até hoje. Para aqueles que se interessarem, eu posso, depois, fornecer por e-mail, eu lhes dou o número do meu endereço eletrônico, para lhes dar algumas indicações de livros com os quais nós podemos começar a tampar este buraco. Você vê que, em todo o âmbito das ciências humanas, o documento escrito corresponde exatamente àquilo que é, nas ciências da natureza, aos dados sensíveis, a observação dos dados sensíveis. Aquilo que não deixa registro escrito de maneira alguma, não é estudável, não é acessível à inteligência humana passado algum tempo, só o que nos resta são os documentos escritos. Então, a condição inicial, a condição número um, número zero, para qualquer debate a respeito, é que você tenha, vamos dizer, o total acesso aos documentos. Eu a cada semana, eu fico mais impressionado de ver como acontecimentos absolutamente fundamentais, essenciais para a compreensão do estado de coisas no mundo, não chegam ao conhecimento do Brasil nem pela mídia, nem mesmo pelo establishment universitário. Então, eu não sei realmente a que é devido isso, e também não interessa fundar as causas desta opinião, desta situação, nós temos que aproveitar o nosso tempinho aqui para tentar preencher alguns pontos disso aí. Mas, se você observar a opinião, vamos dizer, a visão dominante na mídia e nas classes letradas brasileiras, hoje, nós estamos acreditando piamente no tal do mundo unipolar. Quer dizer, existe uma grande potência que, quando a outra terminou, se tornou o poder dominante. E, ao mesmo tempo, ninguém pergunta, mas se tem um mundo unipolar, como é que tem tantos conflitos, tantas guerras assim?
No mundo onde existe, tem duas expressões. O mundo unipolar e pensamento único. No mundo onde tem um poder unipolar e impera um pensamento único, de como é que as pessoas conseguem brigar tanto? Esta pergunta deveria surgir quase que instintivamente, mas ela jamais surge. Se nós, para começar a investigar a coisa, fazer nada melhor do que ver o que se passa dentro do tal do poder unipolar. Quer dizer, supondo que os Estados Unidos sejam hoje a única grande potência, então é evidente que aquilo que se passa lá dentro nos dará uma imagem mais aproximada do esquema de poder no mundo. A presente eleição americana, ela mostra um divisor de águas que até hoje não foi muito bem, não foi nada compreendido no Brasil. Aqui correspondem exatamente essas duas figuras, que não são simetricamente correspondentes de seus respectivos partidos, que são George Bush e Kerry. Por trás deles, existe nos Estados Unidos um conflito muito, muito, muito profundo entre duas concepções da função americana no mundo. Quando nós lemos o nosso noticiário, nós temos a impressão de que a ala do Bush representa a ala imperialista que quer dominar o mundo, e que o seu opositor, o John Kerry, é o indivíduo que pretende colocar um freio no imperialismo e deixar que as nações pequenas se autodefinam. Muito bem, isso só o brasileiro acredita nisto. Ninguém no mundo que será burro o suficiente para que ele está numa coisa dessa. Por quê? Porque a sustentação do apoio a John Kerry e ao Bush, ela se define da seguinte maneira. Kerry está diretamente ligado, vamos dizer, a todas as grandes organizações que têm algo a ver com o poder global. Fundação Rockefeller, Fundação Ford, Fundação MacArthur, etc. Aquilo tudo que nos Estados Unidos se chama o establishment. O establishment é, vamos dizer, um nome de um conjunto mais ou menos de 200 grandes empresas ou 300 grandes famílias que sempre estiveram, vamos dizer, mais ou menos no poder nos Estados Unidos, e da qual você pode captar algo do pensamento dessa turma através da revista Foreign Affairs, que é a revista do conceleração de exteriores, está certo? Se você estudar a história do establishment, ele é exatamente o contrário do que se pensa dele no Brasil. Tudo que no Brasil se imagina como establishment, o establishment seria o topo do capitalismo, o comando geral do imperialismo yanqui, e seria o supra-sumbo da direita internacional. Quando você vai rastrear a história do establishment, você verá que desde o começo do século XX, em todas as eleições americanas, eles sempre apoiaram o candidato de tendência mais estatizante e socialista. Sempre, sempre, que sempre. Qualquer sujeito que chegue lá com história de liberalizar a economia, ou com valores conservadores clássicos, nunca foi apoiado, com exceção do Reagan. O Reagan foi o único sujeito que apoiou o candidato de tendência mais estatizante e socialista. Sempre, sempre, que sempre. Qualquer sujeito que chegue lá com história de liberalizar a economia, ou com valores conservadores clássicos, nunca foi apoiado, com exceção do Reagan. O Reagan foi o único sujeito que conseguiu, vamos dizer, furar esta barreira. Por que o establishment é sempre, vamos dizer, estatizante e mais ou menos socialista? Para entender isso, é preciso investigar um mecanismo que é gerado pelo próprio capitalismo e que funciona assim. O sujeito, dentro da economia de mercado, ele prospera e enriquece de tal maneira, de tal maneira, que quando chega um ponto, vamos dizer, ele percebe que ele não tem mais motivos para continuar submetido às oscilações do mercado. O mercado que o produziu, daí para dentro, se torna uma ameaça para ele. Então, é preciso, vamos dizer, cair fora das leis de mercado para garantir a permanência da grande fortuna pelas gerações seguintes. O indivíduo, então, entra com um tipo de consideração que já não é capitalista, mas que é de ordem dinástica. Ou seja, já não se contenta em ser um grande capitalista, mas quer ser um dinasta, alguém que vai garantir o poder para a família por duas, três, dez ou infinitas gerações. Então, a partir desse momento, a abordagem que essas pessoas fazem da sociedade, já não corresponde a uma perspectiva capitalista, mas a perspectiva do tipo aristocrático. É um poder de tipo aristocrático, o qual, por definição, independe da economia. O poder aristocrático, se você ver qual é a origem dele na Europa, a aristocracia europeia se forma no campo da guerra. São as pessoas que conseguiram organizar, vamos dizer, a resistência às invasões bárbaras, e que, com isso, adquirem um poder, uma liderança, e são premiadas pela comunidade, pela comunidade com terras, dinheiro, etc. Então, esta casta aristocrática aparece como um poder de ordem exclusivamente político-militar, nunca econômico. Quando vocês lerem, o poder da aristocracia se basear na propriedade feudal, você pode dizer que está falando com analfabeto. Está certo? Ao contrário, a economia feudal é produzida como um efeito da constituição da casta aristocrática, que mesmo assim leva muito tempo. Quer dizer, para você entender como é que funciona isto, existe uma cena do Salambó de Flaubert que resume muito bem isto. São dois soldados conversando ali nas guerras contra o Carthago. E um diz assim, olha, quando esta droga terminar, eu vou para cá comprar uma fazenda, vou plantar e vou enriquecer. Eu vou comprar um arado e vou plantar e vou enriquecer. E o outro puxa a espada e diz, eu não preciso de arado nenhum, está aqui o meu arado. Então, esta é a diferença entre o poder aristocrático e o poder econômico. Está certo? O poder aristocrático, ele se forma pelo seu, não pelo poder, vamos dizer, pela força do dinheiro, mas pelo poder de matar. É um poder essencialmente militar, que aos poucos, vamos dizer, se converte num poder político. Ele independe, está certo, da economia, pelo simples fato de que o pobre armado é sempre mais poderoso do que o rico desarmado. Com qualquer assalto de rua, você vê quem é que representa o poder econômico, é a vítima, não é isto? Hoje em dia, a pessoa brasileira é muito dinheirista, ela acredita só em dinheiro. Ela fala, ó, dinheiro funciona, mas tem uma coisa que funciona mais. Está certo, um 38 encostado na sua cabeça funciona enormemente mais.
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