EPISÓDIO 1 - 2ª TEMPORADA
Não Inviabilize
October 14, 2026
Políticas Públicas é um quadro do canal Não Inviabilize. Aqui você ouve as suas histórias misturadas às minhas! QUER OUVIR MAIS HISTÓRIAS?
Speakers Déia Freitas
TopicsComedy FictionFiction
Déia Freitas (0:14)
Oi, gente, cheguei. Voltei com o quadro sobre políticas públicas. É muito importante que a gente entenda o impacto que as políticas públicas têm na vida pessoal das pessoas, mas também na comunidade do viver em comum, né?
E hoje eu vou contar para vocês a história da Adênia. Então, vamos lá. Vamos de história. A ADÊNIA NACERA A Adênia nasceu nos anos 90 em uma comunidade muito pequena e muito pobre do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Na década de 90, onde a Adênia morava, foi considerado o lugar com o pior IDH do Brasil. A sigla IDH significa Índice de Desenvolvimento Humano.
Quando a Adênia tinha uns dois anos, os pais dela se separaram e o pai dela foi embora. Deixou a cidade, foi trabalhar como caminhoneiro e deixou ali a Dona Elsa, a mãe da Adênia, sem nenhuma fonte de renda para criar duas crianças. Dona Elsa se viu ali sem renda, com duas crianças para criar, o Adonis com quatro anos e a Adênia com dois. Na época não havia nenhum tipo de auxílio. Dona Elsa tentou trabalhar na creche ali da comunidade, mas o que ela recebia não era suficiente para se manter e para manter as duas crianças. E ainda tinha o perigo do pai vender a casa, porque ele só ligava, não dava dinheiro nenhum e ameaçava vender a casa da família. Na época, a Dona Elsa desconhecia que ela tinha direito também àquela casa. Imagina o medo, a solidão que Dona Elsa passava, o pavor de parar com duas crianças na rua.
Muito atormentada e realmente não dando conta, Dona Elsa resolveu mudar para o interior de São Paulo. A ideia era arrumar um trabalho, ter pelo menos uma pequena rede de apoio, colocar as crianças na creche e começar a viver um pouco melhor. Então, lá se foi Dona Elsa com a Dênia e a Donis para Guariba. A avó paterna da Dênia ainda queria ficar com as crianças. Dona Elsa morria de medo de deixar as crianças com a sogra e o ex-marido, ao aparecer, pegar as crianças e sumir. Não que ele fosse apegado nas crianças, tá?
SPEAKER_2 (2:50)
E a Dona Elsa falou, não, onde eu for, meus filhos vão junto e eu posso passar fome, mas meus filhos não vão passar fome.
Déia Freitas (2:58)
Eles foram morar em três cômodos nos fundos da casa de um familiar ali. Dona Elsa conseguiu um emprego como auxiliar de enfermagem num hospital, graças a um curso por correspondência que ela tinha feito lá em Minas Gerais. Dona Elsa sempre foi assim, sempre se virando, sempre com ele ficando, correndo atrás.
Dona Elsa começou a trabalhar ali no hospital, até que um dia, chega a polícia atrás da Dona Elsa. Dona Elsa tinha que deixar as crianças com alguém, né? Elas ficavam, sei lá, meio período na creche, mas precisavam ser cuidadas. E elas ficavam com um familiar ali que era adolescente.
A casa que as crianças estavam ficando, tinha sido invadida e tinham encontrado drogas lá. A polícia pegou a Adênia e o Adonis e levou para a delegacia e foi buscar Dona Elsa. Um caos. Dona Elsa se ajeitou ali e a sogra mandava pouquíssimo dinheiro, porque o pai não pagava pensão, né?
E assim a vida seguiu. Dona Elsa trabalhando muito, ganhando pouco. A Adênia e Adonis foram para a escola. O pai, vez em nunca, aparecia, vez em nunca mandava algum dinheiro, depois sumia. Mesmo com todos os problemas, Dona Elsa cumpriu a promessa que fez. Os filhos nunca foram dormir com fome. A Adênia lembra de ir para a missa no domingo e na frente da igreja tem um trailer ali de cachorro-quente. Ela ficava doida, queria um cachorro-quente, mas quase nunca rolava. As crianças ficavam só na vontade. Não passavam fome, né? Mas passavam vontade.
A Adênia queria muito comer aquele cachorro-quente. E um dia, saindo da missa, ela emburrou o que queria. Dona Elsa não tinha dinheiro, o Adônis era um pouquinho maior, ficou quietinho ali do lado. Ela fez birra, chorou, mas não teve jeito, ela não tinha para dar. E aí, no caminho, na volta, Dona Elsa estava com um olho cheio de lágrima ali e o Adônis falou para a Dênia.
SPEAKER_2 (5:12)
Nunca mais faça isso que você fez com a mamãe hoje, que você deixou a mamãe muito triste.
Déia Freitas (5:17)
E ali, a Dênia entendeu o peso que a Dona Elsa carregava sozinha e entendeu também aquela questão de não poder. Realmente, a mãe não tinha para dar. Semanas depois, um dia, eles saíram da missa e a mãe pegou a mão dos dois, atravessou a rua e falou, hoje a gente vai comer um lanche. E a Dênia falou que, nossa, foi o melhor lanche da vida dela, que ela nunca esquece.
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