03. Anthropos + Logos
Antropocast: navegando pela Antropologia
April 6, 2020
Nessa parada, vamos conversar sobre o significado do termo "antropologia". O que está por trás da etimologia da palavra, quando a gente mergulha nela? Qual a diferença entre "palavra" e "conceito"?
Speakers Fred Lucio, Rose Figueiredo
Fred Lucio (0:12)
Olá, viajantes! Bem-vindos ao Antropocast, um podcast que vai te levar a cingrar os mares da antropologia. Eu sou o Fred Lúcio e vou acompanhá-los por essa maravilhosa viagem pela ciência do ser humano. Em nosso percurso, vamos parar em pequenas ilhas do conhecimento, sempre ancorados por uma pergunta que orientará a nossa exploração. Prontos para embarcar comigo? Então vamos nessa, pessoal.
Parada 3, Antropos Logos.
Rose Figueiredo (1:01)
Cresços de Família Humana, Maia Angelou. Noto diferenças óbvias na humana família. Alguns de nós são sérios, outros florescem na alegria. A variedade de tons de nossa pele confunde, surpreende, deixa aturdido. Marrom e rosa e bege, púrpura e moreno e azul e lívido.
Naveguei pelos sete mares numa viagem global. Vi todas as maravilhas do mundo, mas ainda não encontrei um homem universal.
Conheço 10 mil mulheres, Jane e Mary Jane chamadas, mas não vi duas que fossem realmente igualadas. Amamos e perdemos na China. Sobre as plagas da Inglaterra, choramos. Rimos e lamentamos na Guiné. Na costa da Espanha, prosperamos. Buscamos sucesso na Finlândia. No Maine, nascemos e morremos. Em coisas menores, diferimos. Nas maiores, nos parecemos. Noto diferenças óbvias em cada forma e tipo. Nós somos mais iguais, meus amigos, do que desiguais.
SPEAKER_3 (2:37)
Nós somos mais iguais, meus amigos, do que desiguais.
Fred Lucio (2:55)
Olá pessoal, bem-vindos ao nau que nos está conduzindo por essa viagem pela antropologia. Estamos ainda no início. Nas nossas duas paradas anteriores, nós falamos sobre o fazer das ciências humanas e refletimos sobre alguns pressupostos importantes para se entender o próprio fazer antropológico. Nessa parada, nós vamos fazer uma breve reflexão sobre o que está por trás do nome antropologia. Eu pretendo refletir com vocês como é possível extrair da etimologia de uma palavra algumas informações profundas e belas reflexões que estão relacionadas ao seu sentido preciso. Quando eu comecei a me aproximar da antropologia, a cerca de 35 anos, ela era muito pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos. Eu mesmo levei algum tempo para conhecer com um pouco mais de profundidade. Eu cursava Filosofia e dentro da Faculdade de Filosofia é que, por uma série de acasos, eu me aproximei da antropologia.
O antropólogo norueguês Thomas Erickson explica que, por essa época, lá por meados dos anos 80, ela era uma pequena matéria universitária ensinada em pouquíssimos países. Ela era vista pouquinha de fora, como uma área totalmente esotérica, esquisita, estranha. Ao mesmo tempo, ela era tomada pelos seus praticantes como um tipo de conhecimento sagrado, guardado por uma comunidade de devotos, como se fosse uma seita, uma religião. Era realmente uma coisa para poucos. E é curioso como até hoje é mais ou menos assim. Embora o conhecimento sobre antropologia tenha crescido bastante e ela tem ocupado um espaço maior na sociedade, ainda hoje eu converso com alguns amigos, pessoas próximas até, e elas têm dificuldade muito grande de entender exatamente o que a gente faz. Tem que estudar um antropólogo. Qual é, por exemplo, a diferença entre um antropólogo e um sociólogo? Como eu disse no episódio anterior, as pessoas confundem, inclusive quando eu vou dar entrevistas para caras de televisão. Não sabem como me acreditar. Nós continuamos a ser bichos estranhos. Esquisitos. Olha só, enquanto eu fazia essa narrativa, eu estava me lembrando de um filme da cineasta brasileira Laís Bodansky, um filme chamado As Melhores Coisas do Mundo. É um filme sobre o universo da adolescência, que tem um personagem que tem um pai homossexual sumido, gay. O garoto tem um problema muito grande em aceitar a homossexualidade do pai. E há uma cena em que ele está conversando no ônibus com uma amiga e, num determinado momento, ele fala uma coisa muito interessante, que ilustra bem esse meu argumento de como os antropólogos são vistos como estranhos. Vamos ouvir o diálogo da cena para vocês verem do que eu estou falando.
Rose Figueiredo (5:19)
Sua vez.
Fred Lucio (5:20)
Jura que você não conta?
Rose Figueiredo (5:22)
Eu já contei.
SPEAKER_3 (5:23)
Meu pai está namorando um cara.
Rose Figueiredo (5:25)
Sério?
Fred Lucio (5:25)
Jura mesmo?
Rose Figueiredo (5:27)
Como você sabe?
SPEAKER_3 (5:29)
Quando eles se separaram, ele conversou com a gente. Nossa, mano.
Rose Figueiredo (5:33)
Teu pai é muito corajoso.
Fred Lucio (5:35)
Caralho, você não está entendendo.
SPEAKER_3 (5:36)
Meu pai é gay. Tá, mano.
Rose Figueiredo (5:38)
E o meu que é antropólogo?
Fred Lucio (5:40)
Meu, sei que é estranho falar isso, mas ele podia ter ficado por sempre escondido no armário.
Somos seres diferentes escondidos dentro de um armário. Olha que interessante, né? Até hoje, passados dez anos, eu acho essa cena bem emblemática. Assim como as pessoas, no geral, têm dificuldade de compreender orientações sexuais fora dos padrões definidos pela sociedade, como sendo normais, elas têm dificuldade de compreender o que faz um antropólogo, como, aliás, tudo aquilo com o qual elas não estão familiarizadas. Então vamos começar a tirar esse estranhamento. Aliás, esse é um dos propósitos desse podcast. Vamos começar por um ponto básico. Se a gente for consultar vários manuais de introdução à antropologia, a gente vai perceber que cada autor escolhe um viés pelo qual vai começar a falar. É interessante porque cada um tem a sua pegada, cada um tem o seu jeitão. Cada um tem os assuntos de que gosta mais ou dos quais é especialista. No entanto, a grande maioria traz uma abordagem pelo viés histórico, contar o surgimento das reflexões a respeito da condição humana e que levar ao surgimento da antropologia. Eu proponho começarmos aqui por um viés diferente, que é justamente a etimologia da palavra. Eu quero pontuar um aspecto que eu considero importante, a partir da minha experiência de lecionar a antropologia para não especialistas em ciências sociais. No geral, esses manuais introdutórios de antropologia acabam não se detendo muito sobre a etimologia, passam por cima como uma coisa superficial. Não dão muita importância para isso. Eu acho isso um problema porque, na minha opinião, a etimologia da palavra antropologia esconde uma série de questões importantes sobre o fazer da disciplina e sobre duas de suas características mais importantes, que é o fato de ser uma ciência e, também, claro, o seu objeto de investigação, o seu objeto de estudo. Eu entendo que as palavras, especialmente no campo científico, têm sentidos muito profundos para além daquilo que elas aparentam designar. E a gente vai ver que isso ocorre com a antropologia. O primeiro aspecto importante que eu gostaria de ressaltar é pensar que a maioria das pessoas conhece a palavra e sabe o seu significado. Então, elas vão buscar na raiz etimológica uma possível explicação sobre essa ciência para ter pelo menos uma ideia do que ela é. Antropologia é o estudo do homem, como a gente já viu em episódios anteriores. E tem um outro aspecto que eu acho importante que me faz começar pela etimologia, é que a própria palavra esconde uma profundidade do fazer antropológico sobre a qual a gente precisa refletir. Ou seja, analisar de maneira mais profunda a composição da palavra antropologia vai nos levar a uma série de elementos extremamente importantes sobre o fazer antropológico e sobre o que é antropologia de fato. É exatamente nisso que reside a distinção que eu gosto de enfatizar nas minhas aulas entre palavra e conceito. Vamos falar um pouquinho sobre isso.
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