Topics: News
**Natuza Nery** (0:00)
Antes de começar, um aviso. Este episódio contém descrição de violência e aborda questões sensíveis. Caso você seja vítimo ou conheça alguém que esteja passando por uma situação semelhante, não deixe de procurar as autoridades. Diz que sem. Há também o Centro de Valorização da Vida, que atende 24 horas sob o telefone 188
**Renata Cafardo** (0:24)
Os participantes avisam que a live vai começar.
**Natuza Nery** (0:27)
Uma voz masculina dá instruções para a jovem que vai ser a protagonista da ação.
**Renata Cafardo** (0:32)
Qualquer coisa, se perguntarem em sua idade ou algo do tipo, você tem mais de 18 anos. Ai, começou.
**Natuza Nery** (0:39)
Ana era uma menina de 13 anos. Ela vivia em uma cidade do interior do Mato Grosso do Sul, um município pequeno de aproximadamente 50 mil habitantes. Mesmo assim, Ana tinha um acesso potencial a mais de 56 milhões de pessoas a um clique de distância.
Ana é um nome fictício inventado para não identificá-la. Assim como tantos jovens da sua geração, ela passava horas no quarto diante de uma tela. Ali, o que ela via era uma janela para um mundo teoricamente mais interessante e divertido, com amigos, jogos. Ana encontrava isso na plataforma Discord.
Para quem não conhece o Discord, imagine um prédio comercial recheado de salas.
Algumas são abertas, como espaços de convivência. Já outras são restritas, como salas de reunião a portas fechadas. Foi para uma dessas salas reservadas que Ana foi atraída. E não por acaso. Segundo a polícia, há uma prática comum nessa plataforma. Adultos monitoram perfis públicos de crianças e adolescentes em redes abertas, como Instagram ou TikTok. As informações que a própria criança curte ou compartilha se tornam iscas para levá-las para dentro dessas salas fechadas. E ali não tem registro de entrada, não tem nome, não tem idade, nada disso importa.
**Renata Cafardo** (2:00)
Eu estava vendo se estava a volta a cortar.
**Vanessa Cavalieri** (2:03)
Claramente, dá para ver que não é uma questão de maio.
**Renata Cafardo** (2:05)
Fala quantos anos você tem? Tenho oito.
**Natuza Nery** (2:09)
Naquela sala fechada, acessível apenas por convite, Ana se tornou a protagonista de um espetáculo macabro. Diante de uma plateia repleta de adolescentes e de adultos. Ali, ela foi induzida ao suicídio ao vivo, numa transmissão que o próprio discórdia admitiu ter levado quase duas horas para tirar do ar.
**SPEAKER_5** (2:29)
Ao Jum, a mãe, que terá a identidade preservada, falou pela primeira vez sobre a morte da filha, sorrindo, dizendo que já vai jantar e mandando um beijo. Essas são as últimas lembranças que a mãe tem da filha. A mãe faz um apelo, que os pais irresponsáveis conversem mais com os filhos e acompanhem mais de perto a vida digital das crianças e adolescentes.
**Natuza Nery** (2:53)
Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio, mas a investigação revelou um cenário brutal de ameaça e chantagem. E, por conta disso, a polícia civil mudou o foco. Agora, a morte dela é investigada como homicídio e a plataforma enfrenta o questionamento da justiça. Vamos ouvir o que diz Maraisa Cesarino, ao produtor do assunto, Carlos Catelan. Maraisa é advogada, especialista em proteção de dados pessoais e nos direitos da criança e dos adolescentes em ambientes digitais.
**Renata Cafardo** (3:21)
A Agência Nacional de Proteção de Dados Pessoais identificou que existia um alto risco para crianças e adolescentes associados às possibilidades de transmissões ao vivo em servidores fechados do Discord. No âmbito dessa fiscalização, eles acharam por bem determinar uma medida preventiva porque o Discord não tinha terminado de adequar a plataforma para torná-la um ambiente mais saudável para os adolescentes. Então eles suspenderam, preventivamente, só as funcionalidades de live, então de transmissões ao vivo, e durante um período determinado dentro desse procedimento de fiscalização.
**Natuza Nery** (4:03)
O caso ocorreu em 22 de julho e a própria plataforma confirmou que o sistema de proteção falhou.
**Renata Cafardo** (4:09)
No caso do Discord, o que a NPD entendeu é que, primeiro, eles não possuíam um mecanismo de monitoramento dessa funcionalidade de transmissão ao vivo, e aí eles não conseguem, então, tirar do ar quando esse tipo de coisa está acontecendo ao vivo numa transmissão, que foi o que deixou com que a situação chegasse no ponto que chegou com essa adolescente de 13 anos.
**SPEAKER_6** (4:33)
Em uma resposta enviada ao Ministério da Justiça, o Discord disse o seguinte, admitiu que o sistema de proteção falhou e mais, informou ainda o Ministério que o modelo de intervenção automática está sendo reexaminado, inclusive para avaliar possíveis aprimoramentos nos critérios de priorização, portanto, a empresa informando ao governo federal que está reavaliando o atual processo. O Discord não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência. Prosseguiu a plataforma. Investigamos rapidamente e removemos o servidor privado, acessível somente por convite e envolvido no caso pouco depois de sua criação. E seguimos cooperando com as autoridades policiais na investigação.
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