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O Brasil mais violento para negros, mulheres, LGBT+ e crianças

O Assunto

July 24, 2026

Convidados: Lívia Sant'Anna Vaz, promotora de Justiça do Ministério Público da Bahia e doutora em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Lisboa, e Renan Quinalha, professor de Direito da Unifesp e autor de Movimento LGBTI+.
Speakers: Lívia Sant'Anna Vaz, Natuza Nery, Renan Quinalha
**SPEAKER_1** (0:03)
Ele abriu, ele falou que o carro dele não carregava preto, vagabundo, não ia carregar. Gente, a minha cor.

**SPEAKER_2** (0:19)
Ele já falou, ah, vocês nem homens são.
Vocês são bichinhas viadinhos, né? Então agora vocês vão ver como que é conversar de homem para homem.

**SPEAKER_3** (0:28)
Começou a se exaltar e me empurrou. Na hora que ele me empurrou, eu caí para trás, ele já começou a vir me agredir.

**SPEAKER_4** (0:34)
Pode matar, pode matar.

**Lívia Sant'Anna Vaz** (0:36)
Do que eu abri, ele pulou a janela e já foi tacando, né? Tacou a força, amputou minha mão.

**Natuza Nery** (0:42)
O 20º Anuário da Segurança Pública, que foi divulgado na quinta-feira, mostra as feridas abertas de quem mais sofre com a violência no Brasil.
Para começar, eu vou fazer aqui um recorte étnico-racial. O país até pode celebrar a menor taxa de homicídios desde 2012, mas quando a gente olha com atenção para o dado a seguir, a gente vê quem são as vítimas. Das mais de 40 mil pessoas que foram assassinadas no Brasil em 2025, 80% são pessoas negras.

**SPEAKER_7** (1:11)
Outro destaque também triste, penoso, aumentou em 34% a quantidade de denúncias contra o racismo no estado de São Paulo. Os dados fazem parte de um levantamento do Disque 100

**SPEAKER_2** (1:26)
Que uma a cada seis crianças brasileiras já sofreu algum tipo de racismo, de acordo com uma pesquisa nacional feita pelo Datafolha.

**SPEAKER_3** (1:34)
Eu me senti desesperado, eu me senti com medo, com uma dor, com uma angústia, uma raiva, uma tristeza, uma decepção. Racismo é uma dor que sempre vai ser como se fosse a primeira vez. Sempre vai machucar e sempre vai doer.

**Natuza Nery** (1:50)
Mas há outros recortes, como o de gênero, por exemplo. Mulheres que seguem morrendo por serem mulheres. Os feminicídios no Brasil bateram recorde no ano passado. Foram 1571 assassinatos. Isso significa que na média, quatro de nós foram mortas a cada dia de 2025

**SPEAKER_8** (2:08)
Corria para fora gritando ajuda, que socorro, socorro, socorro. Minha filha só tinha 24 homens. Tinha muita coisa para me ver ainda. Deixou uma filhinha de dois anos.

**SPEAKER_2** (2:17)
Não basta matar a mulher.

**Natuza Nery** (2:19)
Eu preciso humilhar, eu preciso subjugar, eu preciso colocá-la numa situação de completa violação de direito. O relatório mostra também que pessoas lésbicas, gays, trans e outras que compõem a população LGBTQIA+, sentem na pele uma violência que não para de crescer. Em apenas um ano, o número de registros de crimes contra essas pessoas subiu mais de 35%. E o pior é que isso não representa a totalidade desses crimes, que são altamente subnotificados.

**SPEAKER_9** (2:50)
Ameaçavam nós de morte, xingavam nós de vários palavrões que não vem ao caso. Era muita gente, muito agressores. Eu não consegui identificar todos, um eu já consegui identificar.
Foi horrível, foi uma cena horrível. Eles empurraram nós para dentro do banheiro, pisaram na nossa cabeça, deram murro. Eu saí de lá desmaiado, como eu te disse, até mata-leão eu levei. Foi uma coisa assim que eu não sei explicar.

**SPEAKER_10** (3:15)
Ele falou, você quer ser homem? Vai apanhar igual homem. Aí pegou a garrafa da minha mão, já veio na minha direção. Primeiro ele me deu um chute, eu acho que a intenção era fazer eu cair, mas eu não caí.
Aí, nisso ele me deu outro chute, tomou a garrafa da minha mão. Aí, na mesma sequência, ele já quebrou a garrafa na minha cabeça. Aí, o amigo dele me deu as duas pauladas. Então, assim, a gente fica com medo, assustado, porque a gente fica pensando, onde que vai chegar? Até onde vai a maldade de ser humano, o preconceito de ser humano?

**Natuza Nery** (3:43)
As crianças e os adolescentes foram alvo de todo tipo de violência. Entre as vítimas de estupro, 60,3 tinham até 13 anos de idade. E uma em cada quatro crianças de zero a nove anos foi alvo desse crime bárbaro. Os dados alarmantes não param por aí. Os registros de bullying e de cyberbullying foram os que mais cresceram nesta edição do anuário, quase 70% maiores.

**SPEAKER_11** (4:08)
Elas fizeram muitas coisas comigo. Eles pegavam fotos minhas zoadas e postavam tipo, olha que lerdona, olha que idiota. E eu fiquei triste, eu fiquei sozinha, sabe?

**SPEAKER_12** (4:17)
Umas sete pessoas, duas pegaram pelo meu braço e os outros cinco começaram a me bater. Lá não tem câmera. Eles têm um grupinho chamado grupinho do terror. Quero mais sair de casa.
Estou apavorada com isso.

**Natuza Nery** (4:35)
E o assunto hoje é Quem são as maiores vítimas da violência no Brasil? Por que os crimes contra mulheres, negros, LGBTs e crianças são os que mais crescem no país? Neste episódio, eu converso com Lívia Santana Vaz, promotora de justiça do Ministério Público da Bahia e doutora pela Universidade de Lisboa. E com Renan Kinalha, professor de direito da UNIFESP e autor do livro Movimento LGBT e mais.

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