**Victor Boyadjian** (0:01)
Uma semana, desde segunda-feira passada, o Brasil está sem embaixador no país, que é um de seus parceiros mais importantes.
Júlio Bitelli, diplomata responsável pela embaixada brasileira em Buenos Aires, foi convocado às pressas de volta à Brasília. O gesto é incomum e tem um significado claro. Sinaliza que a relação entre os dois países entrou em crise. Chama ainda mais atenção que Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, tenha se reunido com Bitelli três vezes desde então.
**SPEAKER_2** (0:31)
Mauro Vieira classificou o episódio como inaceitável, mas defendeu o diálogo com o país vizinho.
**Mauro Vieira** (0:37)
Todo o episódio é extremamente grave e inaceitável, mas nós temos que trabalhar pelo entendimento entre as nações, a diplomacia é feito disso, de conversas.
**Victor Boyadjian** (0:47)
Era a resposta do governo brasileiro à metralhadora de ataques de Javier Millet. No palco da convenção do PL, no partido que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência do Brasil, o presidente da Argentina disse isso, que Lula é presidiário e que Alexandre de Moraes é um lixo careca.
**Javier Milei** (1:06)
Exerismo, é dizer, a versão argentina do presidiário. A barulho calma, calma, não me permitiu visitar meu amigo injustamente encarcelado.
**Victor Boyadjian** (1:20)
De volta à Argentina, Milley insistiu nas provocações. As declarações incomodaram até aliados do presidente argentino.
**SPEAKER_5** (1:30)
Ele tem sido muito criticado pela imprensa argentina, que falaram que ele fez um papelão, que ele provocou a crise.
**Mauro Vieira** (1:37)
Todos os jornais, né?
**SPEAKER_5** (1:38)
É, todos os jornais. E mais, eles estão questionando inclusive a vinda dele, que foi visita privada, e ele veio com avião presidencial e com gastos públicos, provocando gastos públicos.
**Victor Boyadjian** (1:50)
A expectativa era que a crise ficasse restrita à diplomacia. Afinal, Brasil e Argentina são os dois maiores sócios do Mercosul. Dividem cadeias produtivas. São os principais parceiros comerciais um do outro na região. Mas a provocação trocou de lado.
**Lula** (2:05)
Você virou a papaguada que fez aqui o pedido da Argentina. Eu não falei nada.
Porque a minha relação é uma relação de chefe de Estado com Estado. E eu gosto do povo argentino. Eu não vou ficar trocando coisa com aquela coisa.
**Victor Boyadjian** (2:25)
O atrito diplomático tomou toda a tríplice fronteira quando, no dia seguinte, em que rebateu uma lei e aumentou a confusão com a Argentina, o presidente Lula recebeu um cartão amarelo do Paraguai.
**SPEAKER_7** (2:38)
O chanceler paraguaio Ruben Lescano afirmou que o presidente do país conversou por telefone com o presidente Lula. A conversa acontece mais dias depois, na verdade, de um discurso feito por Lula em São Paulo, que causou um mal-estar diplomático.
Na declaração, Lula atribuiu ao país vizinho o início da guerra do Paraguai.
**SPEAKER_8** (2:58)
O que que o presidente disse exatamente? Foi na sexta-feira, ele estava numa agenda no interior de São Paulo e ele estava dizendo, falando da necessidade de ampliar recursos para as Forças Armadas, recursos na área de defesa. Aí ele lembrou que o Brasil não quer guerra com ninguém, que o Brasil só quer paz, mas que acaso em que outros países invadem ou declaram guerra. E citou o fato de o Paraguai ter declarado guerra, segundo ele, o Paraguai declarou guerra ao Brasil e isso gerou a guerra do Paraguai.
**Victor Boyadjian** (3:26)
O embaixador brasileiro em Assunção foi chamado para dar explicações e a diplomacia brasileira moderou o tom.
**SPEAKER_8** (3:32)
Segundo o vice-presidente do Paraguai, o embaixador brasileiro argumentou que o presidente Lula, as falas do presidente Lula foram tiradas de contexto e que em nenhum momento Lula quis insultar, quis ofender o povo paraguaio com essas declarações. Embora ele tenha transmitido repúdio, ele disse que não há intenção do Paraguai em aprofundar essa crise. Ou seja, ele deu uma declaração no sentido de distensionar, de abaixar a temperatura. Inclusive, ele menciona que o governo paraguaio sabe que o Brasil está num momento eleitoral e que eles não querem gerar qualquer suspeita de que essa ação do Paraguai seja para intrometer ou tumultuar as eleições brasileiras.
**Victor Boyadjian** (4:15)
Em poucos dias, o Brasil passou a administrar atritos com dois vizinhos. Há muito mais coisas em comum entre Paraguai e Argentina do que a Bacia do Rio Paraná. Os governos dos dois países são parceiros de primeira hora de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Seus mandatários, Javier Milley e Santiago Penha, são também dois nomes proeminentes da direita na América do Sul. Uma direita que cresce pelo continente e que pode levantar um muro não só ideológico, mas diplomático. E qual o risco do Brasil ficar isolado nesse novo arranjo regional?
Da Redação do G1, eu sou o Natuzaneri e o assunto hoje com Vitor Boedian é Os desafios da integração sul-americana em tempo de polarização. Neste episódio, eu converso com Ariel Palacios, correspondente da Globe e da Globo News para a América Latina. Ariel mora em Buenos Aires. Segunda-feira, 3 de agosto.
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